O consumo na era da convergência

Você está com alguns amigos almoçando num sushi que normalmente custa 80 reais por pessoa, mas você pagou R$30, graças a um site de compra coletiva online que vendeu o cupom pra você e pra outras 499 pessoas em duas horas.

Depois do segundo temaki, você observa que o cara da mesa ao lado está usando um tênis estiloso, de uma marca que você curte. Você pega seu celular, aponta a câmera e tira uma foto. Com dois ou três toques no touch-screen do seu telefone, você localiza o produto pela foto, faz uma compra online e recebe o tênis na sua casa no dia seguinte.

Voltando do restaurante, no metrô, você lê uma crítica de uma banda nova numa revista de comportamento. Ao lado da imagem do álbum, tem um código visual para o qual você aponta seu iPhone e conecta com uma loja virtual que mostra previews das músicas. Você curte o som, faz download, posta um “I like it” nas suas redes sociais e ganha um cupom eletrônico.
Com esse cupom, você vai assistir online ao próximo show da banda, em alta definição, controlando as câmeras, o áudio que quer ouvir, e aparecendo no telão do Madson Square Guarden em NY, através da sua web-cam, sem sair de casa.

Chegando em casa, ainda com cheiro de salmão e com a música nova na cabeça, você abre seu email e recebe uma oferta dizendo que pessoas que ouvem aquela banda inglesa, costumam ler também os seguintes autores que estão com novos títulos em promoção, pra você comprar e ler no seu tablet.

Nas primeiras páginas do romance, o autor descreve uma cena num hotel em Istanbul. Sua descrição é tão rica e brilhante quanto às de Machado de Assis. Você então tem um insight e a idéia de conhecer Istanbul acaba ficando mais interessante que a própria leitura. “Clicando” no nome do Hotel e arrastando seu dedo na tela, você começa a fazer um tour online pelo local e em seguida uma pré-reserva para suas próximas férias.

Você joga o iPad na cama, liga a TV, senta no computador e na outra aba do navegador, abre seu facebook e vê dezenas de comentários no profile da sua namorada.
Ela está no shopping, numa loja que oferece um serviço de “instant show and tell”, um sistema que permite que ela se fotografe com as roupas que está vestindo no provador, e envie fotos para suas amigas, perguntando qual look elas mais gostam e sugerem pra comprar.

Enquanto isso, um sistema rastreou seu username nas lojas virtuais e redes sociais que você acabou de usar e registou o que você consumiu de informação, notícia, literatura, música, entretenimento, o que você conversou com amigos e a cor da sua cueca.

Um algoritmo de web-semântica organiza esses dados e atualiza seu wish-list online de presentes, que sua namorada pode consultar sem ter que perguntar pra sua mãe o que você quer ganhar de aniversário, antes de sair do shopping com o limite do cartão de crédito bem obeso.

Mas sua cabeça agora só pensa em Istanbul. O cenário da sua próxima viagem de férias é bem exótico e você quer começar a explorar antes de chegar lá. O site da companhia de viagens exibe imagens em real time dos principais pontos turísticos da cidade, e você começa a traçar sua rota no mapa online.
Você entra no Google Places e marca lojas com descontos especiais na semana da sua viagem e os restaurantes hypes da cidade.

E tudo passou tão rápido que você nem percebeu que já está lá, numa kebaberia cheia de turistas asiáticos e sabores esquisitos. Do seu lado, com a mesma idade que você, tem um muçulmano tatuado, com um turbante da Nike, usando um tênis super estiloso. Você não vai perder a oportunidade de ser o único no Brasil usando aquele modelo “oriente médio” da Adidas, então você pega seu celular, aponta a câmera pro tênis e…

Pode soar futurista demais, mas é realidade.

Todos esses serviços que mencionei já existem espalhados por este mundão afora.
Não desse jeito sincronizado da historinha, mas o fato é que “O futuro já chegou. Só não está distribuído de forma equilibrada”, como disse William Gibson.
Não dá pra assumir que um conjunto de práticas isoladas de mercado – que se tornam possíveis graças ao desenvolvimento tecnológico – represente necessariamente tendências de consumo.
É muito leviano aceitar isso sem considerar premissas e aspectos sociais, econômicos e culturais.

Mas olhando para nós, cidadãos médios do mundo, com acesso à banda larga e internet móvel, habitantes de grandes centros urbanos, não é difícil observar que, de fato, a forma como consumimos coisas mudou drasticamente. E não precisa voltar muito no passado pra comparar. Há apenas uns vinte anos atrás nada disso existia.

É claro que esse “futuro” ainda é limitado a um universo muito restrito da sociedade e que essas novidades ainda não são representativas o suficiente para gerar um movimento que transforme as coisas num nível mais estrutural, como afetar o modo de produção que estamos inseridos.

Mas é um começo.

Acredito que há um ponto em comum nas mãos das pessoas ou empresas que lançam essas micro “tendências”: sua capacidade de utilizar a tecnologia para processar informações e desenvolver uma comunicação de forma inteligente e contextualizada com a sociedade.

Todos esses serviços lidam com dados. Relacionam esses dados, contextualizam-nos de um jeito quase humano, praticamente conversando com o consumidor. Todos eles estão montados em cima do tripé tecnologia da informação/comunicação/sociedade, ainda que inconscientemente.

Assim como na última revolução industrial, quando algumas empresas, instituições e nações lideraram o mundo ao deter as mudanças tecnológicas como a eletricidade, o motor a combustão, o aço e as telecomunicações, a bola do mundo pós-moderno está e estará nos pés daqueles que dominarem a convergência digital, o processamento inteligente de informações e o aspecto social por trás de tudo isso.

Seja você o dono de uma marca de padarias ou do Google, não importa, as bases pra inovar são as mesmas.

O mundo do capitalismo informacional é dos geeks-comunicadores-sociólogos.

Are you ready?





Referências:

Retirei as novidades de consumo da historinha do relatório do PSKF, lançado gratuitamente no site deles.
É muito bacana e tem muitas outras tendências que eu não citei, pois foquei mais nas novidades do mundo digital:

Pra baixar o paper em pdf, clique aqui.

Pra se aprofundar no assunto das mudanças que vivemos na era do capitalismo informacional, recomendo A Sociedade em Rede, do Manuel Castells e bastante persistência pra vencer as 600 páginas.

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13 Responses

RT @andrelcmartins: O consumo na era da convergência #FreakTimes http://bit.ly/awPPUx

O consumo na era da convergência. post completo: http://bit.ly/awPPUx

O consumo na era da convergência. post completo: http://bit.ly/awPPUx

"O futuro já chegou. Só não está distribuído de forma equilibrada” William Gibson http://bit.ly/c0Lq9Y

Oh yeah! http://ow.ly/2ixdr (via não lembro quem #Sorry)

O Consumo na era da convergência http://bit.ly/c0Lq9Y

RT @natario: O Consumo na era da convergência http://bit.ly/c0Lq9Y

O CONSUMO NA ERA DA CONVERGÊNCIA http://bit.ly/b54qmL

RT @andrelcmartins: O consumo na era da convergência #FreakTimes http://bit.ly/awPPUx

O consumo na era da convergência – http://freaktimes.com/2010/07/29/o-consumo-na-era-da-convergencia-2/ parece futurista, mas é realidade.

Já imaginou como vai ser o consumo no futuro?
Então pare pois já começou.
http://bit.ly/b54qmL

07.29.10

Adorei o post. Enquanto lia imaginava o quanto esta realidade ainda é restrita a poucos, mas não distante dos nossos meios. Os códigos estão por toda a parte. Parabéns!!!!

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